EDITORIAL – DÉCIMA SÉTIMA EDIÇÃO

O mundo perfeito é simples: todos transam sempre que podem, a propriedade privada inexiste, todos os locais são públicos, a eterna suruba rola ao lado de museus que carregam em suas vísceras uma coisa chamada dinheiro, negócio primitivo certa vez gozado pelo comunismo apaixonado. No meio de toda a orgia algumas penas rosadas, flamingos saltitando ansiosos por uma vagina quentinha. Pode ser que surja do céu o Messias, de um tipo carnoso, bem humano, prontinho para levar suas mulheres glorificadas, as freiras do Senhor. Momento ótimo para fotografias e conhaque. Trabalho para o Homem Surpresa e sua lente pervertida. 

 Hot Fritola 17: sabor de coisa erótica, a mistura final de todos os sêmens e líquidos vaginais desse plano de existência. Sente-se, masturbe-se, goze com força no teclado, nos presenteie com suas excreções e aproveite alguns contos depravados e a poesia da verdade absoluta.

UTOPIA


Do zero aos vinte anos, o único compromisso é estudar: Matemática, Ciências Naturais, Filosofia... Na verdade sequer é um “compromisso”, já que ninguém é realmente obrigado, mas como não existe dinheiro e todos os bens materiais são divididos igualmente, a única coisa que torna cada um especial é aquilo que estudou e por isso gostam de estudar. Todos têm acesso à mesma educação de qualidade.

Com vinte anos acontece o ritual de iniciação da vida adulta, não é um ritual religioso, já que aqui não existe religião, absolutamente todos são ateus, é só um ritual simbólico, no qual o indivíduo escolhe seu próprio “nome de adulto” e deixa de ser um “filho” para tornar-se um “pai”.

Durante os estudos se prioriza as pesquisas que vão ao sentido de contribuir para os meios de produção – que já são altamente robotizados, para avanços ecológicos, médicos e também éticos. Óbvio que com a atual sobra de recursos, algumas cidadelas investem bastante em pesquisa espacial.

O HOMEM QUE GOZAVA DINHEIRO


- Este é Pedro – uma enorme tela de projeção foi repentinamente iluminada com a figura de um homem moreno com feições envelhecidas pelo tempo e pelo trabalho árduo – Ele trabalha quarenta e quatro horas por semana, tem direito a repouso semanal remunerado, participação nos lucros da empresa, remuneração por trabalho extraordinário (o famoso cerão), adicional por atividade penosa, licença paternidade, décimo terceiro, salário mínimo, férias... Ao menos é isso o que diz, entre outros direitos, o Capítulo Dois da Constituição da República Federativa do Brasil. Acreditam nisso?

O público, em sua maioria de rostos juvenis, sussurrou consigo mesmo, contudo não se manifestou.

- Eu acredito! Acredito que o que acabei de citar é meramente um ideal, mas no nosso mundo os ideais, infelizmente, somente existem em nossas mentes... O que temos é a triste realidade do Brasil explorado, do mundo envolto no capital, do mundo que faz nosso bom Pedro trabalhar mais de doze horas por dia (ou oitenta e quatro horas por semana), que lhe rouba o dia de folga em prol do lucro, que o coloca no cabresto totalmente ignorante enquanto aos rendimentos daquilo gerado pelo seu suor, que o força a extrapolar os limites da humanidade ao consumir mais da metade do dia em tarefas insalubres, que o priva da alegria de receber de braços abertos o filho que vem ao mundo, que o despoja de dar à família o conforto de sua companhia por conta da necessidade sempre maior e maior de consumo das minorias privilegiadas. O que temos é o refinamento da escravidão travestida sob a forma de contratos de trabalho que, quando não totalmente desrespeitados, são quase que integralmente deturpados, seja pela falta de conhecimento dos trabalhadores vítimas de um sistema de educação alienador, seja pela corrupção dos sindicatos manipulados pelo espúrio capital advindo da exploração das massas inferiorizadas.

O HOMEM SURPRESA


Henry era um cara estranho. Fotógrafo de modelos. Belas modelos. De aparência desleixada, mas proposital. Fotografava-as bebendo whisky. Nenhum produtor, dono de revista, agenciador reclamava.  Muito menos as modelos.

Ele era bom. Talvez o melhor. Em todos os aspectos. Mas era um tanto quanto excêntrico. As modelas caíam de amores por ele. Ele as leva para casa. Henry morava numa casa não muito grande. Dois andares. Peças pequenas. Seu quarto em cima.

Lá habitava o segredo. Henry tornava-se uma mulher. Ainda com formas de homem. Mas com desejos femininos. Não exatamente sexuais, na prática. Henry apenas gostava de simular e fantasiar.

VERDADE ABSOLUTA


Um assassino pode ser o juiz de si mesmo?
É loucura, todos diriam
Outro alguém deve julgá-lo...
Mas os mesmos que por tal justiça clamam
Oram, meditam e investigam
O conhecimento de si mesmo

Ó, o conhecer-te a ti mesmo
Tão belo, bom e justo
Quanto o que há de mais inútil

AS MULHERES DE CRISTO


Padre Cícero. Nome de gente boa, como se costuma dizer. Vivia os dias a rezar, fazendo o bem pelo bem. Sua maior alegria era o sorriso dos pobres amparados pela diocese de Santa Expedida, comandada pelo servo do Senhor desde idos de mil novecentos e alguma coisa. O nobre velhinho era tão antigo, se dizia por ai, quanto a catedral de São Cristovão – o templo mor da região.

Era só o Padre Santo, como era conhecido, iluminar o chão batido com sua presença e a criançada começava a saltitar, os brinquedos fugiam da sacola do senhor e iam para as mãos encardidas da molecada descalça. No outro plano a dentadura amarelada das senhoras resplandecia da porta das casas-colméia cedidas pelo governo. Diziam elas ser aquele homem coisa de Deus, um tipo de anjo senil a espera do empossamento sacro pós-vida.

 Tanto se falava do Padre Cícero, tanto se tinha o homem em estima divina, que naturalmente algo antinatural já era atribuído a sua pessoal. Dizia-se que o convento sob seu comando, o Sacro Convento das Irmãs Expeditas, era visitado por Jesus! Não se sabia se em pessoa ou em espírito – esse dilema serpenteava as conversas de fim de tarde entre as comadres rechonchudas, contudo o que se ia fundo nas veias da fofocagem eram os relatos dos encontros em persona com o Messias.

VERBORRAGIAS ESTRAMBÓTICAS – FLAMINGOS


A penumbra e fumaça de cigarros. O quarto. As garrafas. Algumas ainda pela metade.  Peças de roupas íntimas. Barulhos só de vozes.

Ela, misto de inocência e perversão. Alternava entre olhares de desejos. Gritos desesperados exigindo sexo. E olhares, carinhosos e infantis, como uma criança mimada que conseguia o que queria.

Ele com ares de quem muito viveu. Embora nem tão velho. Nem tão novo.  A fumaça do cigarro dizia que às vezes suas falas eram farsas bem elaboradas e encantadoras.

Disse após pigarrear:

- Sabias que os flamingos fazem sexo oral. Sim. Sim. Descobri quando viaja pelas pontes de Veneza. Não gosto de gôndolas. Dão-me enjôo. Lá pelos lados de uma cidade onde vive chovendo não tem flamingos. E eu que sempre preferi aligátores.

- Não sabia. Mas por que falas isso?